COLETÂNEAS DE UM MÍSTICO
Max Heindel

SUMÁRIO
Iniciação: O que é e o que não é
Iniciação: o que é e o que não é
O Sacramento da Comunhão, em minha memória
O Pecado Imperdoável e as Almas Perdidas
A Carne e a Bebida como fatores na Evolução
Preceitos Práticos para Pessoas Práticas
O Ruído, O silêncio e o Crescimento Anímico
O "Magno Mistério" da Rosacruz
O Significado Cósmico da Páscoa
O Significado Cósmico da Páscoa
Porque sou um Estudante Rosacruz
O Objetivo da Fraternidade Rosacruz
Os assuntos tratados neste livro estão dentre os últimos escritos de Max Heindel, o místico. Eles contêm alguns de seus pensamentos mais profundos e são o resultado de anos de pesquisa e investigação oculta. Ele poderia dizer também como Parsifal: "Através do erro e do sofrimento, através de muitos fracassos e de incontáveis angústias, eu vim". Finalmente, foi-lhe dada a água vivificante com a qual pôde saciar a sede espiritual de tantas almas. Desenvolveu profundamente a piedade, o amor e pôde sentir o palpitar do coração da humanidade sofredora.
Normalmente, almas fortes são dotadas de grande energia e iniciativa e, através dessas forças, galgam posições de vanguarda, embora, freqüentemente, sofram muito. Em conseqüência, sentem imensa compaixão pelos outros. O autor destes ensinamentos sacrificou seu corpo físico no altar do serviço.
Ao escrever os livros e as lições mensais da Fraternidade, ao proferir palestras e aulas, e no árduo trabalho pioneiro de fundar a Sede Mundial no curto período de dez anos, Max Heindel realizou mais do que muitos poderiam fazê-lo em toda uma vida, mesmo que tivessem saúde perfeita. Seu primeiro livro, sua obra-prima, "O Conceito Rosacruz do Cosmos", foi escrito sob orientação direta dos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz. Este livro leva uma mensagem vital para o mundo. Satisfaz não apenas o intelecto, mas também o coração. O livro "Maçonaria e Catolicismo" pode ser encontrado em muitas bibliotecas maçônicas. O ocultista aprende muito com o livro "A Teia do Destino", que é uma fonte de conhecimentos místicos e de proveitosas verdades ocultas. É também um guia para o investigador, quando indica os sinais de perigo aos aventureiros que desejam tomar o céu por assalto. Para a ciência da astrologia, ele deu, em poucos anos, mais informações do que haviam sido dadas anteriormente, em séculos. Seus dois valiosos trabalhos, "Astrologia Científica Simplificada" e "A Mensagem das Estrelas" tratam amplamente dos aspectos espirituais e médicos da astrologia. O último fornece métodos de diagnóstico e cura, o que constitui um acréscimo valioso para os trabalhos de outros autores, tanto antigos quanto modernos. Estes livros podem ser encontrados nas bibliotecas de muitos médicos da escola antiga.
Em "Coletâneas de um Místico" encontramos vinte e quatro lições que foram, originalmente, enviadas aos estudantes. É desejo da autora deste prefácio, que estas lições levem uma mensagem de amor e alegria aos leitores com sede de conhecimentos espirituais e esperança aos desconsolados.
Augusta Foss Heindel
Freqüentemente recebemos perguntas referentes à Iniciação, e pedem-nos para informar se esta ou aquela ordem ou sociedade são genuínas e se as iniciações que elas oferecem aos interessados são de "confiança", Por esta razão, parece-nos necessário fazer uma dissertação sobre o assunto, para que os estudantes da Fraternidade Rosacruz possam ter um esclarecimento que lhes sirva de referência e orientação no futuro.
Em primeiro lugar, gostaríamos de deixar bem claro que consideramos repreensível condenar determinada ordem ou sociedade e fazer qualquer julgamento de suas práticas, pois podem ser sinceras e honestas, de acordo com a sua luz. Não acreditamos poder subir no conceito das pessoas discriminando homens e mulheres em termos depreciativos. Nem temos a ilusão de que nós possuímos toda a verdade e que as outras sociedades estão imersas nas trevas. Reiteramos o que muitas vezes já dissemos, que todas as religiões foram dadas à humanidade pelos Anjos do Destino, que conhecem as necessidades espirituais de cada classe, nação e raça, e têm a sabedoria de dar a cada uma, a forma de adoração adequada à sua necessidade particular. Assim, o Hinduísmo é apropriado ao hindu, o Islamismo ao árabe e a religião Cristã aos nascidos no Hemisfério Ocidental.
As Escolas de Mistérios de cada religião fornecem aos membros mais avançados da raça ou nação que a adote, um ensinamento mais elevado, o qual, se vivenciado, os coloca numa esfera superior de espiritualidade em relação aos seus irmãos. Assim como a religião das raças mais atrasadas é de uma ordem inferior à religião dos pioneiros - as nações Cristãs - assim também os Ensinamentos das Escolas de Mistérios Orientais são mais elementares que os do Ocidente, e os iniciados hindus ou chineses estão num grau de realizações correspondentemente inferior ao do místico ocidental. Consideremos isto profundamente, para que não sejamos vítimas de pessoas mal informadas que tentam persuadir-nos que a religião Cristã é cruel, comparada com os cultos orientais. Sempre para o oeste, seguindo o sol brilhante - a luz do mundo - caminhou a estrela do império. Por que não admitir que a luz espiritual acompanhou a civilização ou mesmo a precedeu, assim como o pensamento precede a ação? Consideramos a religião Cristã como a mais elevada dada ao homem até o momento presente, e repudiá-la, seja ela exotérica ou esotérica, por qualquer sistema antigo, é, o mesmo que preferir desatualizados livros científicos aos mais novos que encerram descobertas recentes.
As práticas do aspirante oriental que pretende obter uma vida mais elevada, não devem ser imitadas pelos ocidentais; referimo-nos, particularmente, aos exercícios respiratórios. Estes são benéficos e necessários ao desenvolvimento do hindu, mas o mesmo não se aplica ao aspirante ocidental. É perigoso praticar tais exercícios de respiração almejando o desenvolvimento anímico. Estes exercícios poderão até prejudicar tal desenvolvimento e são totalmente desnecessários. A razão é a seguinte:
Durante a involução, o tríplice espírito, gradualmente, incrustou-se em um tríplice corpo. Na Época Atlante, o homem estava no nadir da materialidade. Presentemente, a humanidade está passando pelo ponto mais baixo do arco da involução e começa a subir o arco da evolução. Estamos encerrados nesta prisão terrestre e, de tal forma, que as vibrações espirituais permanecem quase extintas. Isto realmente acontece nas raças mais atrasadas e nas classes inferiores do mundo ocidental. Os átomos nos corpos de tais raças atrasadas vibram com intensidade bastante baixa e quando, com o correr do tempo, uma pessoa consegue desenvolver-se e progredir, é necessário elevar esse grau vibratório do átomo para que o corpo vital, que é o agente do crescimento oculto, possa ser, até certo ponto, liberado da força enfraquecedora do átomo físico. Esse resultado é atingido por meio de exercícios respiratórios que, com o tempo, aceleram a vibração do átomo e permitem o crescimento espiritual necessário a cada um.
Esses exercícios também podem ser praticados no mundo ocidental; especialmente por pessoas que não estão realmente preocupadas com o seu desenvolvimento espiritual. Mas, mesmo entre as que desejam o crescimento anímico, muitas ainda não atingiram o ponto em que os átomos de seus corpos evoluíram a um grau suficiente de vibração, portanto, a aceleração deles, além da medida habitual, poderia prejudicá-las. Nestes casos, os exercícios de respiração não causariam grande dano. Mas, se forem dados a uma pessoa que está prestes a trilhar o caminho do desenvolvimento, quase preparada para a Iniciação e poderia ser beneficiada por exercícios espirituais, então, o caso torna-se bem diferente.
Durante as várias eras que percorremos no processo da nossa evolução, desde quando estávamos em corpos hindus, nossos átomos vêm acelerando enormemente seus graus vibratórios e, como foi explicado no caso da pessoa que está próxima da Iniciação, o grau de vibração resulta mais elevado do que o da média humana. Portanto, a pessoa não precisa de exercícios respiratórios para acelerar este grau, mas de certos exercícios espirituais que sejam individualmente adequados para seu progresso no caminho certo. Se neste período crítico, ela encontra alguém que, por ignorância e inescrupulosamente, lhe ensina exercícios respiratórios que praticará corretamente na esperança de obter resultados mais rápidos, na verdade os obterá, mas não da forma que esperava, pois o grau vibratório dos átomos em seu corpo se tornará, em pouco tempo, tão acelerado, que terá a sensação de estar caminhando no ar. Poderá ocorrer também uma divisão imprópria no corpo vital, o que causará um desgaste físico e até mesmo a insanidade. Assim, grave bem em sua consciência e com letras de fogo, o seguinte: A Iniciação é um processo espiritual, e o progresso espiritual não pode ser efetuado por meios físicos mas somente por exercícios espirituais.
Existem muitas ordens no Ocidente que alegam iniciar qualquer pessoa, desde que pague por isso. Algumas dessas ordens têm nomes parecidos com o nosso e muitos estudantes nos perguntam se estão ligadas a nós. Para resolvermos definitivamente essa questão, lembrem-se que a Fraternidade Rosacruz tem constantemente afirmado que nenhum dom espiritual pode ser negociado por dinheiro. Reiteramos que não temos ligação com nenhuma ordem que solicite dinheiro para transmitir poder espiritual. Aquele que tem algo a oferecer de natureza verdadeiramente espiritual, não o trocará por dinheiro. Recebi um especial mandato a este respeito dos Irmãos Maiores no Templo Rosacruz, quando me foi dada a missão de servir como seu mensageiro no mundo de língua inglesa. Não pretendo que acreditem nisso, salvo se virem que ela é justificada por seus frutos.
Porém, voltemos à Iniciação. O que é? É uma cerimônia como é praticada por certas ordens? Se assim for, qualquer ordem poderá elaborar cerimônias com formas as mais diversas. Podem apelar para as emoções através de roupas pomposas e choque de espadas. Podem suscitar sentimentos de admiração e medo ao arrastar correntes e fazer ressoar gongos, e assim produzir em seus seguidores uma "sensação oculta". Muitos se deleitam com as aventuras e experiências do herói do "O Irmão do Terceiro Grau", pensando ser isto a Iniciação, mas eu asseguro que está muito longe de ser assim. Nenhuma cerimônia pode dar a alguém a experiência interna que constitui a Iniciação, não importa quanto foi pago ou quão impressionantes tenham sido os juramentos, quanto a cerimônia decorreu terrível ou admirável, ou quanto as vestimentas eram maravilhosas. Passar por uma cerimônia não converte um pecador em um santo. A conversão é, para o religioso exotérico, exatamente o que a Iniciação é no misticismo elevado. Considerem este assunto profundamente e obterão a chave para o problema.
Acreditam que alguém possa aproximar-se de uma pessoa de caráter depravado, aceitar convertê-la em troca de certa soma de dinheiro e cumprir seu compromisso? Sabemos que nenhuma quantia realizaria essa transformação no caráter de um homem. Perguntem a um verdadeiro convertido onde e como adquiriu sua religião. Um poderá dizer que a recebeu enquanto caminhava; outro dirá que a luz e a mudança alcançaram-no na solidão de seu quarto; outro ainda, que a luz incidiu sobre ele, como aconteceu a Paulo na estrada de Damasco, convertendo-o. Cada um possui uma experiência diferente mas, em cada caso, é uma experiência interna e a manifestação externa desta experiência interna é que transforma toda a vida do homem, em todos os seus aspectos.
O mesmo acontece com a Iniciação: é uma experiência interna, completamente separada e à parte de qualquer cerimonial, portanto, é totalmente impossível que alguém possa comercializá-la. A Iniciação transforma por completo a vida de um homem. Dá-lhe uma confiança que jamais possuiu. Envolve-o com o manto de autoridade que nunca ser-lhe-á tirado. Não importam as circunstâncias que se apresentem na vida, ela difunde uma luz sobre todo seu ser que é simplesmente maravilhosa. Nenhuma cerimônia pode efetuar tal transformação. Portanto, repetimos que aquele que oferecer a iniciação em uma ordem ocultista por dinheiro e através de cerimônias, qualifica-se de imediato como um impostor. Se um aspirante aproximar-se de um verdadeiro Mestre oferecendo-lhe dinheiro para obter conhecimentos espirituais, por certo ouvirá as mesmas palavras indignadas proferidas por Pedro a Simão, o feiticeiro, que lhe ofereceu dinheiro para obter poderes espirituais: "Tua prata morrerá contigo".
Para compreender melhor o que constitui a Iniciação e quais são os seus pré-requisitos, o estudante deve observar cuidadosamente que uma grande parte da humanidade está evoluindo e, de forma lenta e quase imperceptível, conseguindo atingir estados de consciência cada vez mais elevados. O caminho da evolução é uma espiral quando o observamos unicamente sob o lado físico, mas é uma lemniscata quando visto tanto em seu lado físico como no espiritual (Veja o diagrama do caduceu químico no "O Conceito Rosacruz do Cosmos"). Na lemniscata, ou forma de oito, há dois círculos que convergem para um ponto central e esses círculos podem ser considerados símbolos do espírito imortal, o ego em evolução. Um dos círculos significa sua vida no mundo físico, do nascimento à morte. Durante este curto período de tempo, ele planta uma semente em cada ato praticado e, em troca, colherá uma correspondente experiência. No entanto, do mesmo modo que podemos semear e nada colher daquela semente porque caiu em solo pedregoso, entre espinhos, etc., também a semente da oportunidade pode perder-se devido à negligência no lavrar o solo. A vida será, então, infrutífera. Por outro lado, à medida que a atenção e o cuidado no cultivo aumentam imensamente a força produtiva da semente, assim também a séria dedicação aos vários afazeres da vida - aproveitamento das oportunidades para aprender as lições de cada dia e extrair delas a experiência que contêm - redunda em mais oportunidades e, ao fim de um dia de existência, o ego encontra-se à porta da morte carregado com os mais ricos frutos colhidos através da vida.
Ao terminar o trabalho objetivo da existência física, quando o dia de ação acabou, o ego entra no trabalho subjetivo da assimilação, realizado durante sua permanência nos mundos invisíveis, que compreende o período desde a morte até ao nascimento, simbolizado pelo outro anel da lemniscata. Como o método de realizar esta assimilação já foi minuciosamente descrito em várias partes de nossa literatura, não é necessário repeti-lo aqui. Relembramos, no entanto, que no momento em que um ego chega ao ponto central na lemniscata, a qual divide os mundos físico do psíquico e que chamamos a porta do nascimento ou da morte - designação dependente do lugar onde nós próprios estejamos no momento desse ego entrar ou sair da vida - ele traz consigo um conjunto de faculdades ou talentos adquiridos em suas vidas anteriores, e que poderá usá-los ou não durante sua próxima existência. Seu crescimento anímico dependerá do uso que fizer de seus dons.
Se por muitas vidas ele satisfez principalmente a natureza inferior, viveu para comer, beber e divertir-se, sonhou e passou a vida em especulações metafísicas sobre a natureza de Deus, abstendo-se sempre de todas as ações necessárias, evidentemente será deixado para traz pelos mais diligentes e progressistas. Agrupamentos desses preguiçosos formam o que chamamos "raças atrasadas", enquanto os participantes e dinâmicos que estão despertos para aproveitar todas as oportunidades, são os pioneiros. Contrariamente à idéia comumente aceita, isto se aplica também àqueles que trabalham na indústria. O fato de ganhar dinheiro é uma circunstância, um incentivo. Além desse aspecto, o seu trabalho é tão ou mais espiritual que o daqueles que passam seu tempo orando em prejuízo de uma atividade útil.
Assim, torna-se claro que o método de crescimento da alma, alcançado pelo processo da evolução, requer ação na vida física, seguido de um processo de reflexão no estado "post-mortem". Aqui, as lições da vida são extraídas e completamente incorporadas à consciência do ego, embora as experiências, em si mesmas, sejam esquecidas, do mesmo modo que esquecemos nosso esforço quando aprendemos a tabuada, embora a faculdade de utilizá-la permaneça conosco.
Este processo extremamente vagaroso e monótono está perfeitamente de acordo com as necessidades das massas. Porém, existem alguns que esgotam mais rapidamente as experiências dadas, exigindo e merecendo um campo maior para utilizar suas energias. A diferença de temperamento é a responsável pela divisão em duas classes.
Uma classe, guiada por sua devoção a Cristo, segue os ditames do coração em seu trabalho de amor por seus semelhantes - índoles maravilhosas, tornam-se luzes de amor num mundo sofredor, nunca são movidas por motivos egoístas, mas estão sempre prontas a abdicar de seu conforto pessoal para ajudar os outros. Assim foram os santos que tanto trabalharam como rezaram, nunca se esquivando do dever e da oração. Não estão mortos hoje. A Terra seria um deserto estéril, apesar de toda sua civilização, se eles não tivessem circulado pelo mundo com mensagens de perdão, iluminando a vida dos sofredores com a luz da esperança que irradia de seus semblantes amorosos. Se eles tivessem apenas o conhecimento possuído pela outra classe, certamente não teriam ajudado tanto os que buscam o caminho para o Reino.
A mente é a característica predominante da outra classe. Para ajudá-la em seus esforços na direção do conhecimento, as Escolas de Mistérios foram introduzidas primeiramente onde o drama do mundo estava sendo representado, para dar à alma aspirante, enquanto estava enlevada, respostas às perguntas sobre a origem e o destino da humanidade. Quando desperta, era instruída na ciência sagrada de como ascender mais seguindo o método da natureza - que é Deus em manifestação - plantando a semente da ação, meditando sobre a experiência e incorporando a moral essencial para obter, finalmente, um crescimento anímico correspondente. Com essa importante característica aprendemos que, no curso normal das coisas, uma vida inteira dedicada à semeadura e uma existência "post-mortem" dedicada à meditação e incorporação da substância anímica, farão com que este ciclo de mais ou menos mil anos possa ser reduzido a um dia, como assegura a máxima mística: "Um dia é como mil anos e mil anos como um dia". Portanto, seja qual for o trabalho executado em um único dia, se repassado à noite antes de cruzarmos o ponto neutro entre o estado de vigília e o sono, poderá ser incorporado à consciência do espírito como valioso poder anímico. Quando este exercício é executado fielmente, os pecados de cada dia assim revistos são apagados e o homem começa uma nova vida, com uma força anímica acrescentada, obtida em todos os dias de sua vida de probacionista.
Mas! - sim, há um grande MAS; a natureza não deve ser enganada, Deus não pode ser escarnecido. "O homem colherá aquilo que semear". Não devemos pensar que uma revisão superficial dos acontecimentos de um dia, admitindo simplesmente: "gostaria de não ter feito isto", ao rever uma cena onde tenhamos feito algo evidentemente errado, salvar-nos-á das conseqüências futuras. Quando ao morrer abandonamos o corpo denso e entramos no purgatório, o panorama de nossa vida passada desenrola-se em ordem inversa, para mostrar-nos primeiro os efeitos e depois as causas de nossas ações. Aí sentimos intensamente a dor que causamos aos outros. A menos que efetuemos nossos exercícios de modo que vivamos todas as noites nosso inferno, sentindo severamente toda dor que infligimos, estes exercícios de nada valerão. Da mesma forma, devemos procurar sentir, de maneira intensa, a gratidão pela bondade que recebemos de outros e a aprovação pelo bem que tenhamos feito.
Somente assim estaremos realmente vivendo a existência "post-mortem" e avançando cientificamente em direção à Iniciação. O maior perigo do aspirante que está trilhando esse caminho é prender-se na armadilha do egoísmo, e sua única proteção deve advir do cultivo das faculdades da fé, da devoção e da compaixão para com todos. É difícil, mas pode ser feito, e quando isto acontece, a pessoa torna-se uma maravilhosa força para o bem do mundo.
Se o estudante ponderou bem os argumentos anteriores, provavelmente compreendeu a analogia entre o ciclo longo da evolução e os ciclos curtos ou degraus percorridos no caminho da preparação. Deve ficar bem claro que ninguém poderá fazer este trabalho "post-mortem" por nós e transmitir-nos crescimento anímico, assim como uma pessoa não pode comer o alimento físico de outra, transmitindo-lhe o sustento e o crescimento. Achamos absurdo quando um padre se propõe a diminuir a permanência de uma alma no purgatório. Então, como podemos acreditar que alguém - não importa quais as considerações feitas - possa evitar que passemos por algumas existências purgatoriais para o nosso próprio benefício e pretenda transmitir-nos a força anímica que deveríamos adquirir no curso normal da vida, até o dia que estivéssemos preparados para a Iniciação? É absurda a oferta para iniciar uma pessoa que ainda está no limiar do caminho. Devemos ter a indispensável força anímica para a Iniciação, caso contrário ninguém poderá iniciar-nos. Se tivermos essa força, estaremos nesse limiar pelos nossos próprios esforços e podemos solicitar a Iniciação como um direito que ninguém ousará refutar ou deter. Se fosse possível comprá-Ia, seria muito barato mesmo por vinte e cinco milhões de dólares, e a pessoa que a oferece por vinte e cinco dólares é tão inescrupulosa como aquela que foi lograda. Lembremo-nos que se alguém se oferece para iniciar-nos numa ordem ocultista, não importa se é chamada "Rosacruz" ou qualquer outro nome, exigindo pagamento por uma taxa de iniciação, devemos considerá-lo um impostor. Explicações de que a taxa será usada para comprar insígnias, etc., são outras evidências da natureza fraudulenta da ordem. Repito, enfaticamente, que "a Iniciação não é uma cerimônia externa, mas uma experiência interna". Posso acrescentar ainda que os Irmãos Maiores da Rosacruz no Templo Místico, onde eu recebi a Luz, impuseram a condição de que sua ciência sagrada nunca deveria ser negociada por dinheiro. Gratuitamente a recebi e gratuitamente a dou. Tenho obedecido este preceito, tanto em espírito como em tudo o que escrevo, como é do conhecimento dos que se relacionam com a Fraternidade Rosacruz.
Para obtermos um conhecimento completo do profundo e abrangente significado de como o Sacramento da Comunhão foi instituído, é necessário considerar a evolução do nosso planeta e a composição do homem, assim como a química dos alimentos e sua influência sobre a humanidade. Para elucidar melhor, recapitularemos rapidamente os Ensinamentos Rosacruzes e os vários assuntos tratados, conforme foram dados no "Conceito Rosacruz do Cosmos" e em outros trabalhos nossos.
Os Espíritos Virginais, que hoje são a humanidade, começaram sua peregrinação através da matéria na aurora dos tempos e, pelo atrito da existência concreta, suas forças latentes puderam ser transformadas em energia motriz como força anímica utilizável. Três véus sucessivos de matéria, cada vez mais densa, foram adquiridos pelos espíritos evoluintes durante os Períodos de Saturno, Solar e Lunar. Assim, cada espírito foi separado de todos os outros, e a consciência que não podia penetrar as paredes da prisão da matéria e comunicar-se com os outros, foi forçada a interiorizar-se e, ao fazê-lo, descobriu-se A SI Mesma. Desta maneira foi obtida a consciência própria.
Uma cristalização ulterior dos véus acima mencionados ocorreu no Período Terrestre durante as Épocas Polar, Hiperbórea e Lemúrica. Na Época Atlante, a mente foi acrescentada como um ponto focal entre o espírito e o corpo, completando a constituição do homem que ficou, então, equipado para conquistar o mundo e gerar força anímica pelo seu esforço e experiência, tendo individualmente vontade própria e livre-arbítrio, exceto quando limitado pelas leis da natureza e por suas próprias ações anteriores.
À medida que o homem em formação evoluía, grandes Hierarquias Criadoras guiavam os seus passos. Nada era deixado ao acaso. Até o alimento era escolhido, para que obtivesse daí o material necessário para construir os vários veículos de consciência necessários para realizar o processo do crescimento anímico. A Bíblia menciona essas várias etapas, embora coloque Nimrod em lugar errado ao fazê-lo simbolizar os reis da Atlântida que viveram antes do Dilúvio.
Na Época Polar, a matéria mineral pura tornou-se uma parte constituinte do homem. Assim, Adão foi feito de terra, isto é, quanto ao seu corpo denso.
Na Época Hiperbórea, o corpo vital foi acrescentado e assim sua constituição tornou-se semelhante a de uma planta, e Caim, o homem dessa época, viveu dos frutos do solo.
A Época Lemúrica presenciou a evolução de um corpo de desejos que fez o homem semelhante aos animais atuais. O leite, produto dos animais vivos, foi acrescentado à dieta humana. Abel era um pastor, mas em nenhum lugar consta que tenha matado um animal.
Naquele tempo, a humanidade vivia inocente e pacificamente na atmosfera nebulosa que envolvia a Terra durante a última parte da Época Lemúrica, como está descrito no capítulo sobre o "Batismo". Os homens eram como crianças sob os cuidados de um pai comum, até que receberam a mente no início da Época Atlante. A atividade do pensamento desgasta o tecido que precisa ser reposto. Quanto mais baixo e mais materialista for o pensamento, maior será a destruição e mais premente a necessidade de albumina por meio da qual se efetuam reparos rápidos. Daí a necessidade, a mãe da invenção, de iniciar a repugnante prática de comer carne e, enquanto continuarmos com pensamentos voltados só para os negócios e puramente materialistas, temos que prosseguir usando nosso estômago como receptáculo de nossas vítimas: os corpos em decomposição dos animais assassinados. Contudo, como veremos mais adiante, a alimentação carnívora possibilitou-nos alcançar o maravilhoso progresso material no Mundo Ocidental, enquanto que os vegetarianos hindus e chineses permaneceram num estado quase primitivo. É triste saber que eles serão forçados a seguir nossos passos e verter o sangue desses animais quando nós já tivermos acabado com esta prática bárbara, da mesma forma que acabamos com o canibalismo.
Quanto mais crescermos espiritualmente, mais nossos pensamentos se harmonizarão com o ritmo de nosso corpo, e menos albumina será necessária para reconstituir os tecidos. Conseqüentemente, uma dieta vegetariana preencherá nossas necessidades. Pitágoras pregou abstinência de vegetais aos alunos mais avançados por achar que eram ricos em albumina e reavivariam os apetites inferiores. Não vá o estudante concluir, apressadamente, que deve eliminar os vegetais de sua dieta. Muitos não estão ainda preparados para tais extremos, e nem mesmo aconselharíamos todos estudantes a absterem-se totalmente da carne. A mudança deve vir de dentro. No entanto, verificamos que a maioria das pessoas come carne demais pensando que lhe faz bem. Mas isto é uma digressão, portanto, voltemos à evolução ulterior da humanidade no que se relaciona ao Sacramento da Comunhão.
Quando a neblina densa que envolvia a Terra esfriou, condensou-se e inundou as diversas bacias, a atmosfera clareou e, em conseqüência dessa mudança atmosférica, houve uma adaptação fisiológica no homem. As fissuras em forma de brânquias, que haviam permitido que ele respirasse no ar denso carregado de água (que são vistas no feto humano até hoje), gradualmente se atrofiaram e sua função foi exercida pelos pulmões, com o ar puro entrando e saindo deles através da laringe. Isso permitiu que o espírito, confinado pelo véu da carne, pudesse expressar-se em palavras e ações.
Foi nos meados da Época Atlante, que o Sol brilhou pela primeira vez sobre o HOMEM como o conhecemos hoje. Foi quando ele nasceu pela primeira vez no mundo. Até então, havia estado sob o controle absoluto das grandes Hierarquias espirituais, mudo, sem voz ou escolha no que se referia à sua educação, do mesmo modo que uma criança está agora sob o controle de seus pais.
Porém, no dia em que finalmente emergiu da atmosfera densa da Atlântida - quando contemplou pela primeira vez e claramente a silhueta das montanhas e os contornos nítidos da abóbada azul-celeste; quando se deparou com a beleza das charnecas, das campinas, das criaturas que se moviam, dos pássaros no ar, e viu seu semelhante, o homem; quando sua visão se tornou clara por não mais existir aquela obscuridade parcial da nebulosa que antes embaraçava a percepção e, acima de tudo, quando tomou conhecimento de SI MESMO como ser separado e à parte de todos os outros, brotou de seus lábios o grito glorioso e triunfante, "EU SOU".
Agora, já possuía faculdades que o possibilitavam entrar na escola da experiência, o mundo fenomenal, como um agente livre para aprender as lições da vida, sem impedimentos, exceto pelas leis da natureza e pela reação de suas próprias ações anteriores, que se converteram em destino.
A dieta contendo um excesso de albumina proveniente da carne, com a qual se fartava, sobrecarregava seu fígado além de sua capacidade e obstruía o sistema, tornando-o moroso, obstinado e brutal. Assim, foi perdendo a visão espiritual que lhe revelava os anjos guardiães nos quais confiava, e viu somente as formas dos animais e dos homens. Os espíritos, com os quais viveu em amor e fraternidade durante o início da Época Atlante, foram obscurecidos pelo véu da carne. Tudo era muito estranho e ele os temia.
Daí tornou-se necessário dar-lhe um novo alimento que pudesse ajudar seu espírito a dominar as moléculas de carne altamente individualizadas (como é explicado no "O Conceito Rosacruz do Cosmos"; no capítulo sobre Assimilação), apoiá-lo na batalha do mundo e estimulá-lo em sua auto-afirmação.
Assim como nossos corpos visíveis formados de componentes químicos desenvolvem-se somente com alimentos químicos, assim também é necessário o espírito para atuar sobre o espírito, para ajudar a dissolver a pesada substância protéica e estimular o decaído espírito humano.
O emergir da Atlântida inundada, a liberação da humanidade do governo absoluto dos visíveis guardiães sobre-humanos, sua colocação sob a Lei de Conseqüência e as Leis da Natureza, e a dádiva do VINHO são fatos descritos nas narrativas de Noé e Moisés, embora em relatos diferentes de um mesmo acontecimento.
Tanto Noé quanto Moisés conduziram seus prosélitos através da água. Moisés clama aos céus e à terra para que testemunhem que colocou diante deles a bênção e a maldição, exorta-os a escolher o bem ou arcar com as conseqüências de seus atos. Em seguida, deixa-os.
O fenômeno do arco-íris necessita que o Sol esteja perto do horizonte, quanto mais perto melhor, e requer uma atmosfera límpida e uma nuvem escura na parte oposta do céu. Sob tais condições, um observador que permanecer de costas para o Sol, poderá ver os raios deste astro refletidos através das gotas da chuva como um arco-íris. No início da Época Atlante, quando ainda não havia chuva e a atmosfera era uma névoa úmida e quente, através da qual o Sol parecia uma de nossas lâmpadas num dia de neblina, o fenômeno do arco-íris era uma impossibilidade. Só teve condições de aparecer quando a névoa se condensou em chuva, inundou as bacias da Terra e deixou a atmosfera clara como descrita na história de Noé, que assim aponta os ciclos da Lei de Alternância que trazem o dia e a noite, o verão e o inverno, em seqüência invariável, à qual o homem está sujeito na época atual.
Noé cultivou a vinha e forneceu uma bebida alcoólica para estimular o homem. Dessa forma, equipado com uma constituição heterogênea, com uma dieta apropriada à ocasião e leis divinas para guiá-lo, o ser humano tornou-se responsável por suas próprias iniciativas na batalha da vida.
"O Senhor Jesus, na mesma noite em que foi traído, tomou o pão em suas mãos e depois de dar graças, partiu-o e disse: Tomai e comei, isto é o MEU corpo que é partido por vós. Fazei isto em minha memória. Do mesmo modo, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no MEU sangue. Toda vez que beberdes, fazei isto em minha memória. Porque toda vez que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha. Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, peca contra o corpo e contra o sangue do Senhor... Pois quem come e bebe indignamente, come e bebe sua própria condenação... E por causa disso que há entre vós muitos doentes e fracos, e muitos dormem". I Cor: 11:23-30.
Nas passagens anteriores existe um significado esotérico profundamente oculto, obscuro na tradução inglesa, mas em alemão, latim e grego, o estudante pode ter uma idéia do que realmente foi pretendido com a última ordem do Salvador a Seus discípulos. Antes de examinar este aspecto, vamos considerar primeiro as palavras: "em minha memória". Estaremos, então, em melhores condições para compreender o significado do "cálice" e do "pão".
Suponhamos que um homem procedente de uma terra. distante venha ao nosso país e viaje através dele, visitando vários lugares. Por toda parte verá pequenas comunidades reunindo-se ao redor da Mesa do Senhor para celebrar o rito mais sagrado dos Cristãos. Se perguntasse por que fazem isso, eles responder-lhe-iam que é em memória d'Aquele que era a bondade e o amor personificados; d'Aquele que era o servo de todos sem se preocupar em ganhar ou perder. Se este estrangeiro comparasse a atitude dessas comunidades religiosas aos domingos na celebração deste rito, com suas vidas durante o resto da semana, o que veria?
Cada um de nós sai para o mundo a fim de lutar bravamente pela existência. Sob a lei da necessidade, esquecemos o amor que deveria ser o fator principal nas vidas cristãs. A mão do homem está sempre contra seu irmão. Todos lutam por posição, riqueza e pelo poder que adquirem com esses atributos. Esquecem na segunda-feira, o que reverentemente relembraram no domingo. Ressentem-se disso e todos são infelizes. Fazemos também uma distinção entre o pão e o vinho que bebemos na chamada "Mesa do Senhor" e o alimento que ingerimos em outras ocasiões, nos intervalos do comparecimento à Comunhão. Porém, nada, é mencionado nas Escrituras que justifique esta distinção, como podemos verificar mesmo na versão inglesa, que omite as palavras impressas em itálico inseridas pelos tradutores para dar o que pensavam ser o sentido da passagem. Pelo contrário, é-nos dito que tudo o que comermos, bebermos ou qualquer coisa que fizermos, deverá ser feito para a glória de Deus. Todos os nossos atos deveriam ser uma oração. A "ação de graças" superficial que fazemos às refeições é, na realidade, uma blasfêmia. Um pensamento silencioso de agradecimento Àquele que nos dá o pão de cada dia é o suficiente. Devemos lembrar, à cada refeição, que o alimento retirado da substância da terra é o corpo do Espírito de Cristo que ali habita, que aquele corpo está sendo repartido para nós diariamente, e podemos, então, apreciar a bondade amorosa que O impele a dar-Se a nós. Lembremo-nos, também, que não há um momento, dia ou noite, que Ele não esteja sofrendo por estar ligado a esta Terra. Portanto, quando comemos e percebemos a verdadeira situação, estamos realmente proclamando a morte de Cristo, cujo espírito está gemendo e labutando, esperando pelo dia da libertação, quando não haverá necessidade de uma envoltura tão densa como a que necessitamos agora.
Mas há um outro mistério, maior e mais. maravilhoso ainda, oculto nessas palavras de Cristo. Richard Wagner, com a rara intuição de um gênio musical, percebeu isto quando, sentado em meditação à beira do Lago de Zurique numa Sexta Feira Santa, sentiu brotar em seu espírito um pensamento: "Que ligação existe entre a morte do Salvador e os milhões de sementes que germinam na terra nesta época do ano?" Se meditarmos sobre a vida que anualmente brota na primavera, vemo-la como algo maravilhoso e digno de veneração. Há um fluxo de vida que transforma o globo, do inverno de uma aparente massa gelada, em vida primaveril e rejuvenescida num curto espaço de tempo. A vida que assim se propaga nos brotos de milhares e milhares de plantas, é a vida do Espírito da Terra.
Dela vem tanto o trigo como a uva. Representam o corpo e o sangue do aprisionado Espírito da Terra, incumbido de sustentar a humanidade durante a presente fase de sua evolução. Repudiamos a alegação daqueles que julgam que o mundo lhes deve uma vida plena, sem que se esforcem por ela e onde não tenham responsabilidade material. Insistimos que existe uma responsabilidade espiritual ligada ao pão e ao vinho servidos na Ceia do Senhor: devem ser ingeridos condignamente, caso contrário, causarão enfermidades e até mesmo a morte. Superficialmente lido, poderá parecer um conceito forçado, porém, quando meditamos à luz do esoterismo, examinando outras traduções da Bíblia e observando as condições atuais do mundo, veremos que não é assim tão forçado.
Retornemos à época em que o homem vivia sob a guarda dos anjos, construindo, inconscientemente, o corpo que agora usa. Isto foi na antiga Lemúria. Era necessário um cérebro para evolução do pensamento e uma laringe para sua expressão verbal. Portanto, metade da força criadora foi dirigida para cima e usada pelo homem para formar esses órgãos. A humanidade tornou-se assim unissexual, e foi forçada a procurar um complemento quando foi necessário criar um novo corpo para servir de instrumento numa fase mais elevada da evolução.
Enquanto o ato do amor era consumado sob a sábia tutela dos anjos, a existência do homem estava livre de tristezas, dores e morte. Mas quando, sob a custódia dos Espíritos Lucíferos, ele comeu da árvore do Conhecimento e perpetuou a raça sem levar em conta as linhas de força interplanetárias, transgrediu a lei, e os corpos assim formados cristalizaram-se impropriamente e tornaram-se sujeitos à morte, de maneira muito mais perceptível do que haviam estado até então. Por isso, foi forçado a criar novos corpos com mais freqüência à medida que seu período de vida se encurtava. Os guardiães celestiais da força criadora expulsaram o homem do jardim do amor para o deserto do mundo, e ele tornou-se responsável por suas ações sob a lei cósmica que governa o universo. Desde então, e através das eras, vem lutando para conseguir sua própria salvação, e a Terra, em conseqüência, cristalizou-se cada vez mais.
Hierarquias divinas, incluindo o Espírito de Cristo, trabalharam sobre a Terra externamente, assim como o espírito-grupo guia os animais sob sua proteção. Mas, como diz Paulo tão corretamente: "Ninguém pode ser justificado sob a lei, pois sob ela todos pecaram e todos devem morrer". Não existe no antigo pacto nenhuma esperança além da presente, salvo um presságio de "alguém que há de vir" e que restaurará a retidão e a justiça. Por isso, João proclama que a lei foi dada por Moisés e a graça veio através de Cristo. Mas, o que é a graça? Pode ela trabalhar contra a lei e anulá-la completamente? É evidente que não. As leis de Deus são imutáveis e firmes, caso contrário, o universo viraria um caos. A lei de gravidade mantém nossas casas em posição relativa às outras casas e, quando saímos delas, sabemos com certeza que as encontraremos no mesmo lugar ao retornarmos. Pelo mesmo princípio, todas as outras divisões no universo estão sujeitas à leis imutáveis.
Assim como a lei separada do amor originou o pecado, assim também a lei temperada com amor tornou-se a graça. Tomemos um exemplo de nossas condições sociais concretas: temos leis que decretam uma certa penalidade para uma ofensa específica e, quando a lei é observada, chamamos isto de justiça. Porém, uma longa experiência está começando a ensinar-nos que justiça, pura e simples, é como os dentes do dragão Colchian que gera disputas e lutas cada vez maiores. O chamado criminoso permanece criminoso e torna-se cada vez mais embrutecido pelas penalidades da lei. Mas, quando um regime menos rigoroso permite que a sentença imputada àquele que transgrediu a lei seja suspensa, então ele estará sob a graça e não sob a lei. Também o cristão que procura seguir os passos do Mestre é emancipado da lei do pecado pela graça, desde que abandone o caminho do pecado.
Este foi o pecado de nossos progenitores na antiga Lemúria, quando desperdiçaram suas sementes sem levar em conta alei é sem considerar o amor. Mas é privilégio do cristão redimir-se, pela pureza de sua vida, em memória do Senhor. João diz: "Sua semente permanece nele" e este é o. significado oculto do pão e do vinho. Na versão inglesa lemos simplesmente: "Este é o cálice do Novo Testamento", mas no alemão, a palavra que designa cálice é "Kelch" e em latim é "Calix", ambas significando a parte externa que envolve a semente da flor. Em grego temos um significado mais sutil ainda, não expresso em outras línguas, na palavra "poterion", um significado que se torna evidente quando consideramos a etimologia da palavra "pot". Isto nos dá imediatamente a mesma idéia de cálice - um receptáculo. O verbo latino "potare" (beber) também mostra que o "cálice" é um receptáculo capaz de reter um líquido. Nossas palavras inglesas "potente" e "impotente", designando possuir ou ter falta da força viril, mostra o significado desta palavra grega que indica a evolução do homem em super-homem.
Já vivemos uma existência semelhante ao mineral, à planta e ao animal antes de nos tornarmos humanos como o somos hoje. Diante de nós existem ainda outras evoluções até aproximarmo-nos cada vez mais do Divino. Reconhecemos que são nossas paixões animais que nos retêm no caminho da realização. A natureza inferior está constantemente em luta com o Eu superior. Isto acontece com os que já experimentaram um despertar espiritual. Uma guerra está sendo travada silenciosamente no interior do aspirante e pior seria se isso fosse reprimido. Goethe, com arte magistral, exprimiu este sentimento nas palavras de Fausto, a alma aspirante, ao dirigir-se a seu amigo materialista, Wagner:
"Por um só impulso tu estás possuído,
Inconsciente do outro permaneces, ainda não o tens sentido.
Duas almas, oh! moram dentro do meu peito,
E aí lutam por um indivisível reino;
Uma aspira pela terra, com vontade apaixonada,
A íntimas entranhas ainda está ligada.
Acima das névoas, a outra aspira, de certeza,
Com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza".
Era o conhecimento dessa necessidade absoluta de castidade (exceto quando o objetivo é a procriação) por parte daqueles que já haviam tido um despertar espiritual, que inspirou as palavras de Cristo. O Apóstolo Paulo exprimiu uma verdade esotérica quando disse que aqueles que tomam a comunhão sem viver a vida, estão em perigo de doença e morte. Assim como, sob uma tutela espiritual, a pureza de vida pode elevar o discípulo de maneira maravilhosa, assim também a incontinência produz um efeito muito maior sobre os corpos mais sensibilizados dó que sobre aqueles que estão ainda sob a lei e não se tornaram participantes da graça, pelo cálice da Nova Aliança.
Tendo estudado o significado esotérico das festividades cristãs do Natal e da Páscoa, como também a doutrina da Imaculada Concepção, dediquemos agora nossa atenção ao significado interno dos sacramentos da Igreja que são ministrados a cada pessoa em todos os países cristãos, desde o berço até o túmulo, e que fazem parte de todos os momentos importantes de sua vida.
Logo que tem início a jornada da vida, a Igreja admite a pessoa na congregação de fiéis pelo rito do Batismo, concedido quando ainda não é responsável por si mesma. Mais tarde, quando sua mentalidade já está um pouco mais desenvolvida, confirma aquele pacto e é admitida na Comunhão, onde o pão é partido e o vinho é bebido em memória do Fundador da nossa fé. Mais adiante, depara-se com o sacramento do Matrimônio e, finalmente, quando seu caminhar na Terra expira e o espírito retorna ao céu, que o deu, o corpo terreno é entregue ao pé de onde veio, acompanhado pelas bênçãos da Igreja.
No atual Protestantismo, o espírito de protesto é excessivo ao extremo e os discordantes erguem suas vozes rebelando-se contra a arrogância ilusória do clero e desaprovam os sacramentos qualificando-os de meras fantasias. Em conseqüência dessa atitude, essas funções tornaram-se de pouco ou nenhum efeito na vida da comunidade. Divergências surgiram entre os próprios clérigos e várias seitas formaram-se e afastaram-se da congregação apostólica original.
Apesar de todos os protestos, as várias doutrinas e sacramentos da Igreja são, contudo, as pedras angulares no arco da evolução, pois inculcam moralidade da mais elevada natureza. Até mesmo cientistas materialistas como